Redação Nota 1000
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Postado: 28 de março de 2017|1 comentário

Desde o final de 2016, a continuidade (ou não) da redação no ENEM aflige aqueles que trabalham com educação, especialmente no Ensino Médio, sejam professores, coordenadores pedagógicos ou diretores escolares. Para os estudantes que vão fazer o ENEM, então, nem se fala! O assunto infestou as timelines das discussões relacionadas ao principal exame do país e todos perguntavam: afinal de contas, vão tirar a redação do ENEM?

Uma semana após a divulgação das mudanças no Exame Nacional do Ensino Médio, essa dúvida ainda paira no ar, mesmo tendo sido mantida a redação – agora no primeiro dia de prova. Alguns dizem que é questão de tempo, e que o governo só não tirou ainda a dissertação escrita para não tumultuar demais, não causar muita confusão de uma vez só, mas que isso já foi, inclusive, definido. Outros vaticinam que o custo da aplicação da redação, seu exército de corretores e sua peculiar complexidade, mais cedo ou mais tarde, justificarão a aplicação de uma prova unicamente com questões de múltipla escolha. É mais fácil e mais barato, não é mesmo?

Sim, é claro que seria mais fácil e mais barato. Mas essa questão não pode ser reduzida à análise simples do custo, senão seria mais barato ainda aplicar menos questões e fazer a prova em um único dia. Para entender a importância da redação escrita na prova, vale lembrar do motivo para a sua entrada no exame, posto que ela não esteve lá desde sempre. Você pode não recordar, mas no início, em 1998, o ENEM era composto apenas por testes. Diferentemente do exame hoje, ele não era usado para o ingresso dos estudantes em faculdades e universidades, mas apenas como uma ferramenta para a avaliação da qualidade da Educação Básica no país.

Com os anos, o ENEM foi sendo aprimorado e ganhou outras funções, entre elas, duas muito importantes: funcionar como vestibular para dezenas de universidades, incluindo as federais, e servir como acesso aos programas de financiamento estudantil como o FIES e o PROUNI. Esses novos papéis impuseram ao exame bem mais responsabilidade do que antes: era preciso ser extremamente técnico e justo, posto que a prova passou a definir, para o bem e para o mal, o futuro dos candidatos.

Acontece que um exame composto apenas por testes pode não ser justo. Um robô, por exemplo, programado para escolher sempre a alternativa “c”, consegue acertar em média 20% da prova. Da mesma maneira, um aluno completamente despreparado, ou mesmo não alfabetizado, pode assinalar aleatoriamente as alternativas e conseguir um resultado mínimo que o classifique para algum curso disponível. Era necessário verificar minimamente o letramento para saber se o candidato tem condições de cursar a faculdade em questão, e a redação é a ferramenta perfeita para isso.

Ao mesmo tempo, a modernização da prova como um todo trouxe interdisciplinaridade e contextualização, valorizando as competências e habilidades do aluno mais do que a simples memória dos conteúdos. Com o novo formato, o ENEM passou a ser aceito, universidade por universidade, como legítimo vestibular de entrada.

Voltemos agora à questão inicial. É possível tirar a redação do ENEM? Sim, é possível. Mas, na minha opinião, não sem tirá-lo também da posição de porta de entrada para dezenas de universidades Brasil afora. Para essas funções, seria mandatório estruturar novos exames, novos vestibulares, novas provas, e então a redação apareceria novamente, agora descentralizada, cada faculdade com a sua. E aí, podem ter certeza, a somatória do custo total seria bem maior do que o investimento para a aplicação de uma prova de redação unificada.

 

Mas, espera… A ideia não era reduzir gastos?

 

Clayton Dick
(Diretor Geral do Redação Nota 1000)


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